A Pincelada é um Corte
- Rodrigo Neiva
- 5 de mar.
- 2 min de leitura

Cézanne não pintava a Montagne Sainte-Victoire; ele se deixava ser olhado por ela. Para Lacan, o olhar não é o olho, mas algo que nos atinge de fora. Cézanne passou décadas diante do mesmo maciço, tentando captar o que ele chamava de "a realização": o ponto exato onde a natureza se torna pintura sem deixar de ser selvagem.
Na psicanalise, isso se traduz no encontro com o Objeto a — aquele resto de realidade que escapa à linguagem, mas que organiza todo o nosso desejo. Cézanne pintava o "buraco" no centro do visível.
Lacan nos ensina que a verdade tem estrutura de ficção. Cézanne, por sua vez, rompeu com a ilusão da perspectiva renascentista (o "Grande Outro" da arte clássica) para revelar a estrutura do mundo em cilindros, esferas e cones.
Há algo de profundamente lacaniano na angústia de Cézanne, que gritava diante das telas por "não conseguir captar".
Essa falta-a-ser é o motor do desejo. Se Cézanne tivesse "chegado lá" , a pintura teria morrido.
Lacan diz que o analista deve sustentar o lugar do vazio para que o sujeito emerja. Cézanne sustenta o vazio da tela até que a cor se torne carne. Ele não representa uma maçã; ele apresenta a "maçandade" — a coisa em si, despojada de utilidade, pura presença.
A Pincelada é um Corte
Pintar é desaprender o nome das coisas.
Cézanne sabia que, para ver o mundo, era preciso primeiro cegar o habito.
Lacan sabia que, para ouvir o sujeito, era preciso silenciar o ego.
Onde o pintor coloca o pigmento, o analista coloca a pontuação.
Ambos trabalham na borda do abismo:
Um tenta dar corpo ao que não se explica;
O outro tenta dar voz ao que não se diz.
A Montanha não é pedra, é o Real que insiste.
A maçã não é fruto, é o objeto que causa o desejo.
No fim, resta apenas a mancha:
O traço que prova que estivemos ali, tentando cercar o impossível...



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