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A Pincelada é um Corte



Cézanne não pintava a Montagne Sainte-Victoire; ele se deixava ser olhado por ela. Para Lacan, o olhar não é o olho, mas algo que nos atinge de fora. Cézanne passou décadas diante do mesmo maciço, tentando captar o que ele chamava de "a realização": o ponto exato onde a natureza se torna pintura sem deixar de ser selvagem.

Na psicanalise, isso se traduz no encontro com o Objeto a — aquele resto de realidade que escapa à linguagem, mas que organiza todo o nosso desejo. Cézanne pintava o "buraco" no centro do visível.

Lacan nos ensina que a verdade tem estrutura de ficção. Cézanne, por sua vez, rompeu com a ilusão da perspectiva renascentista (o "Grande Outro" da arte clássica) para revelar a estrutura do mundo em cilindros, esferas e cones.

Há algo de profundamente lacaniano na angústia de Cézanne, que gritava diante das telas por "não conseguir captar".

Essa falta-a-ser é o motor do desejo. Se Cézanne tivesse "chegado lá" , a pintura teria morrido.

Lacan diz que o analista deve sustentar o lugar do vazio para que o sujeito emerja. Cézanne sustenta o vazio da tela até que a cor se torne carne. Ele não representa uma maçã; ele apresenta a "maçandade" — a coisa em si, despojada de utilidade, pura presença.


A Pincelada é um Corte

Pintar é desaprender o nome das coisas.

Cézanne sabia que, para ver o mundo, era preciso primeiro cegar o habito.

Lacan sabia que, para ouvir o sujeito, era preciso silenciar o ego.

Onde o pintor coloca o pigmento, o analista coloca a pontuação.

Ambos trabalham na borda do abismo:

Um tenta dar corpo ao que não se explica;

O outro tenta dar voz ao que não se diz.

A Montanha não é pedra, é o Real que insiste.

A maçã não é fruto, é o objeto que causa o desejo.

No fim, resta apenas a mancha:

O traço que prova que estivemos ali, tentando cercar o impossível...


 
 
 

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